
Uma estratégia baseada em evidências, o protocolo GOLD é a principal referência para o diagnóstico, o manejo e a prevenção da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
Em fevereiro de 2026, a Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) abordou as atualizações que envolvem desde o diagnóstico até o tratamento da DPOC, evidenciando o uso de imunobiológicos e na vacinação por VSR.
Resumo rápido: o que mudou no GOLD 2026
- A classificação ABE ficou mais sensível: basta o histórico de risco para direcionar o Grupo E ao tratamento mais intenso.
- Consolidou-se o conceito de Atividade da Doença, com foco em eliminar exacerbações, não só controlar sintomas.
- Os biológicos (dupilumabe e mepolizumabe) entraram no seguimento para quem mantém exacerbações apesar da terapia tripla e tem eosinófilos maiores ou iguais a 300 células/µL.
- A seção de exacerbações foi revisada: a gravidade passa a ser definida pelas características clínicas, não pelo tratamento usado.
- A vacina contra o VSR é recomendada a partir dos 50 anos, e o antigo capítulo de comorbidades virou “DPOC e Multimorbidade”.
O que é DPOC e como é feito o diagnóstico?
A DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) é uma doença respiratória crônica, marcada por limitação persistente ao fluxo de ar, associada à exposição a partículas e gases nocivos, sobretudo o tabaco e a fumaça de biomassa. Os sintomas típicos são dispneia, tosse crônica e produção de escarro.
O diagnóstico exige espirometria: confirma-se a DPOC quando a relação VEF1/CVF pós-broncodilatador é menor que 0,70. Sem essa alteração espirométrica, não se firma o diagnóstico.
Classificação GOLD 1 a 4 (gravidade da obstrução)
Confirmada a obstrução (VEF1/CVF menor que 0,70), o VEF1 pós-broncodilatador define o grau da limitação:
| Grau | Gravidade | VEF1 (% do previsto) |
|---|---|---|
| GOLD 1 | Leve | VEF1 maior ou igual a 80% |
| GOLD 2 | Moderada | 50% a 79% |
| GOLD 3 | Grave | 30% a 49% |
| GOLD 4 | Muito grave | menor que 30% |
Atenção: o grau espirométrico (1 a 4) avalia a obstrução, enquanto a classificação ABE avalia sintomas e risco de exacerbação. São eixos complementares.
O que esperar de novo no relatório GOLD 2026?
No final de 2025, o relatório GOLD introduziu 330 novas referências e 14 novas figuras que reestruturam todo o manejo da DPOC. Dentre as principais mudanças, damos destaque às modificações na classificação para escolha do tratamento, o conceito de atividade da doença, os fármacos utilizados enovas indicações, por fim o rastreamento e prevenção com novas recomendações.
Classificação ABE GOLD 2026
O ano de 2026 trouxe a grande novidade de uma nova forma de classificação da DOC. No lugar da ABCD que analisava as crises diária e anuais do paciente em um limiar de exacerbações, entra a atual ABE que tem como objetivo uma tolerância zero para exacerbações. A nova classificação se enquadra assim:
- Grupo A (Assintomático/Pouco Sintomático): Paciente apresenta pouca falta de ar (mMRC 0-1) e pouco impacto na vida (CAT < 10); além de ter histórico de 0 exacerbações moderadas ou graves. Em linhas gerais é aquele paciente que diz “eu canso só quando corro”, mas leva uma vida normal.
- Grupo B (Sintomático): Aqueles pacientes que apresentam mais falta de ar (mMRC ≥ 2) ou maior impacto na rotina (CAT ≥ 10) e que tem histórico de 0 exacerbações moderadas ou graves. Esse é o paciente que sente falta de ar ao caminhar no plano ou subir um lance de escada, mas que não costuma ir ao pronto-socorro com crises.
Eixo Superior: Alto Risco (Grupo E)
Aqui está a mudança de 2026. Anteriormente (até 2025), o paciente precisava ter duas exacerbações moderadas para subir para este nível. Agora, o critério é mais rigoroso.
- Grupo E (Exacerbador): Pacientes apresentam qualquer nível (pode ser muito ou pouco sintomático, o risco dita a conduta), no seu histórico existem 2 ou mais exacerbações moderadas (que exigiram antibiótico ou corticoide oral) OU pelo menos 1 exacerbação grave (com hospitalização), independentemente dos sintomas. O Significado do “E”: Vem de “Exacerbator” (Exacerbador), pois representa um paciente instável. Independente de como ele se sente hoje, o fato de ter tido uma única crise moderada/grave no último ano já o coloca em alto risco de ter outra ou de perder função pulmonar.
Conceito Novo
A nova diretriz adiciona formalmente o conceito de Atividade da Doença que mostra que o objetivo do tratamento passa a ser alcançar o “estado de baixa Atividade da Doença”, ou seja, caracterizado pela ausência de exacerbações. Isso é uma mudança significativa que sai de “controlar sintomas” para “eliminar os eventos agudos”.
Inovações do Tratamento Farmacológico
A atualização enfatiza uma distinção que antes ficava um pouco implícita e agora é regra absoluta: não tratamos paciente “virgem” de tratamento da mesma forma que tratamos quem já usa bombinha.
A GOLD 2026 ressalta o uso de terapia dupla (LABA e LAMA) para o grupo E com uma nova ressalva: O ICS (corticóide inalatório) deve ser iniciado precocemente na terapia farmacológica do Grupo E se o paciente tiver eosinófilos ≥ 300 células/µL.
| Grupo | Histórico de Exacerbações (Anual) | Sintomas (mMRC / CAT) | Conduta Inicial Sugerida |
| A | 0 ou 1 moderada (sem hosp.) | mMRC 0-1 / CAT < 10 | Monobroncodilatador (LABA ou LAMA) |
| B | 0 ou 1 moderada (sem hosp.) | mMRC ≥ 2 / CAT ≥ 10 | LABA + LAMA (Terapia Dupla) |
| E | ≥ 2 mod. OU ≥ 1 grave (hosp.) | Qualquer nível | LABA + LAMA (ou LABA+LAMA+ICS se Eos ≥ 300) |
A. Tratamento Inicial (Pacientes Naïve)
- Para o paciente que acabou de receber o diagnóstico e nunca usou medicação de manutenção.
- A escolha aqui é baseada puramente na classificação GOLD A, B ou E (que discutimos antes).
- O objetivo é tirar o paciente da “zona de risco” imediatamente. Se ele é Grupo E (exacerbador), já iniciamos com terapia dupla (LABA+LAMA) ou até tripla se houver eosinofilia, sem “perder tempo” com monoterapia.
B. Tratamento de Seguimento (Follow-up)
- Para o paciente que volta ao seu consultório já usando medicação.
- Aqui, a classificação ABE perde a importância. O guia agora oferece algoritmos de “tratos tratáveis” baseados em dois fenótipos principais:
- Fenótipo Dispneico: O paciente continua com falta de ar? -> O foco é otimizar a broncodilatação (trocar dispositivo, checar adesão, escalonar para LABA+LAMA).
- Fenótipo Exacerbador: O paciente continua tendo crises? -> O foco é a inflamação. Aqui entram os Corticoides Inalatórios (ICS) e, agora, os Biológicos.
Terapia biológica no GOLD 2026
O GOLD 2026 ganhou uma figura própria para os biológicos no tratamento de seguimento. As opções são o dupilumabe (anti IL-4/IL-13) e o mepolizumabe (anti IL-5). A indicação é para o paciente que mantém exacerbações apesar da terapia tripla (LABA + LAMA + corticoide inalatório) e apresenta eosinófilos sanguíneos iguais ou maiores que 300 células/µL, sobretudo no fenótipo de inflamação do tipo 2.
Resumindo, O GOLD 2026 reforça que “revisar” (checar a técnica inalatória e adesão) vem antes de “ajustar” a dose!
Rastreamento e Prevenção
O GOLD 2026 mantém a posição de que não se recomenda espirometria generalizada (screening populacional) para assintomáticos sem risco. O foco é o Case-Finding (Busca Ativa de Casos). A lógica de rastreamento segue a linha:
- Identificação do risco (tabagismo? exposição a biomassa? poluentes ocupacionais?);
- Triagem de sintomas (com questionários rápido de triagem – CAPTURE ou o COPD-PS);
- Confirmação diagnóstica (o objetivo é encontrar os Missing Millions – pacientes não diagnosticados- antes que tenham a primeira exacerbação grave).
GOLD 2026 e a vacinação contra o VSR
Uma novidade no artigo publicado em fevereiro de 2026 foi a inclusão de recomendações ainda mais fortes para a vacina contra o VSR (Vírus Sincicial Respiratório) em idosos e pacientes com doenças crônicas. Antes vista como uma recomendação mais geral, a vacinação contra a VSR é uma intervenção fundamental para redução de mortalidade e exacerbações, pois ele é um gatilho perigoso para crises de DPOC, muitas vezes subestimado.
- Indicação: Recomendada para todos os pacientes com DPOC a partir dos 50 anos.
- Esquema: Dose única (atualmente, as vacinas disponíveis como Arexvy e Abrysvo mostram proteção duradoura).
- Por que importa: Reduz drasticamente o risco de Doença do Trato Respiratório Inferior (DTRI) e hospitalizações.
Além disso, outras vacinas tiveram importância ressaltada.
| Vacina | Indicação Principal | Esquema Sugerido |
| VSR (Vírus Sincicial) | Pacientes com DPOC ≥ 50 anos | Dose única |
| Pneumocócica (VPC20) | Todos os pacientes com diagnóstico de DPOC | Dose única (preferencial) |
| Influenza | Todos os pacientes (prevenção sazonal) | Dose anual |
| COVID-19 | Grupo prioritário para doses de reforço | Conforme calendário local |
| Herpes Zóster | Pacientes ≥ 50 anos (especialmente se usam corticoides) | 2 doses (intervalo 2-6 meses) |
| dTPa (Coqueluche) | Proteção contra Bordetella pertussis | Reforço a cada 10 anos |
Outras novidades do GOLD 2026
- Exacerbações: a gravidade passa a ser classificada pelas características clínicas do paciente, e não mais retrospectivamente pelo tratamento adotado.
- O capítulo “DPOC e Comorbidades” foi reformulado como “DPOC e Multimorbidade”, incorporando a visão de sindemias.
- Reforço à busca ativa de casos (case-finding) com questionários como CAPTURE, COPD-PS e COLA, este último validado para o português.
Raio-X MedCof: o que cai na prova sobre o GOLD 2026
DPOC é tema certo nas provas, e o GOLD muda todo ano. Os pontos de maior rendimento em 2026:
- Diagnóstico: VEF1/CVF pós-broncodilatador menor que 0,70.
- Gravidade por espirometria: GOLD 1 a 4 pelo VEF1 (80 / 50 / 30 por cento).
- Classificação ABE: Grupo E = 2 ou mais exacerbações moderadas OU 1 ou mais grave (hospitalização).
- Tratamento inicial: Grupo A com monobroncodilatador; B e E com LABA + LAMA; ICS precoce no E se eosinófilos maiores ou iguais a 300.
- Biológicos (dupilumabe/mepolizumabe) para exacerbador com eosinofilia apesar de terapia tripla.
- Vacina do VSR a partir dos 50 anos.
O que fazer: fixe o corte espirométrico do diagnóstico e o critério do Grupo E, que são as pegadinhas mais frequentes.
Perguntas frequentes sobre o GOLD 2026
O que é o GOLD?
É a Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease, iniciativa global que publica, todos os anos, as diretrizes de diagnóstico, manejo e prevenção da DPOC baseadas em evidências.
O que mudou no GOLD 2026?
As principais novidades são a classificação ABE mais sensível, os biológicos no seguimento, a revisão das exacerbações, a vacina do VSR a partir dos 50 anos e o novo capítulo de multimorbidade.
Como classificar o paciente em A, B ou E?
Pelos sintomas (mMRC e CAT) e pelo histórico de exacerbações. Grupo A: pouco sintomático e sem exacerbações relevantes; B: mais sintomático; E: exacerbador (2 ou mais moderadas ou 1 ou mais grave).
Qual o tratamento inicial por grupo?
Grupo A: monobroncodilatador (LABA ou LAMA). Grupos B e E: LABA + LAMA. No Grupo E com eosinófilos iguais ou maiores que 300, associa-se corticoide inalatório desde o início.
Leia mais em: Nova terapia para DPOC chega ao Brasil e reduz crises em 52%

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